sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Silêncio da Estrela.


- Você vê aquele narizinho em pé? Puro medo camuflado.
Quando chega a noite ela corre para os seus cobertores e, com a cabeça coberta sob o travesseiro, chora a noite inteira. Esse ar de mulher decidida é mais descartável que aquele cara bonitinho que a levou ao cinema ontem, e aquele andar confiante e firme, apesar dos saltos finos que lhe custaram metade do salário, é resultado de muito ensaio e observações.
Dia desses a ouvi cantar "nosso estranho amor" no chuveiro. Até Caetano choraria com  aquela voz que oscilava de tanta emoção, e a moça, tal como Timóteo, corava diante do espelho ao perceber que se expunha demais. Pois assim tem sido : sucumbiu-se tanto que até já perdera-se de vista. Grosso modo, com incúria em demasia, havia deixado-se cair em alguma parte do caminho. E tudo por não conseguir pronunciar palavras que impliquem necessidades, por não conseguir gritar para ela e para o mundo tudo que borbulha na garganta , ou, simplesmente,  por não caber nos braços de ninguém e fechar os seus próprios para que ninguém ouse encaixar-se neles.
E aqueles sorrisos escandalosos todo sábado à noite? Ela vive dizendo que é só uma forma que encontrou de libertar-se aos poucos e que, o seu segredo, sua alma, ou seu eu-incógnita - como costuma chamar - não irá escapar nesse ínterim.
Pobre moça... mal sabe ela que não se pode conhecer alguém através de sua (auto)biografia, mas que um sorriso,ah esse sim, consegue expressar-se em sua simplória  mudez.

(Ilustração.!)