segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz."

Encontre alguém que seja improvisado. Não precisa vir com rótulos e prazos, mas que venha com muito espaço e muita matéria.

 Encontre a pessoa que vai te dizer o quão belos são seus olhos, mesmo que tenha acabado de acordar. E vai elogiar o modo como você prende os cabelos e a sua expressão quase hermética ao ler Clarice Lispector.
Que passe horas te olhando e tente, com frases comuns e gestos pueris, te explicar a singularidade do sentimento que as suas palavras e companhia denotam.
Encontre alguém que lhe mostre coisas novas em você mesma, que te ajude a se conhecer melhor. Que aplauda suas qualidades e afague os seus defeitos. Que lhe dê chão, parede e teto; e compartilhe o céu com você. Que você possa presentear com O menino maluquinho de Ziraldo.
 Ache a pessoa que admire os seus versos e ache incrível a sua memória lhe permitir gravar todas as frases da Amélie Poulain. Que não estranhe as suas citações de  Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, porque mesmo que não saiba como, ele compreenderá, assim como Ulisses
Encontre esse alguém para assistir comédias românticas com você e saiba todos os significados que a vontade de comer chocolate tem. Que te ensine a jogar xadrez e te escreva uma carta.
Alguém que compreenda o seu choro mensal e a sensibilidade que te faz, muitas vezes, querer as coisas mais simples do mundo, como a presença silenciosa ou um abraço quente. Que perceba quando não é sim, e sim é não.
Que seja um homem para perceber a mulher que você é. E um menino, para não se deixar embrutecer com  as trivialidades acessíveis do tempo.
Encontre a pessoa que você possa amar da mesma maneira como se ama um dia ensolarado e um bichinho de estimação.  Que te ame com leveza, respeito e sabor de fruta.
Que não sinta medo de ser bom para você, que não se acovarde pelo seu jeito escritora e ouse adentrar suas páginas sem receios e ponderações. Que te enxergue completa e ainda assim queira fazer parte de você. 


Que se divida e venha inteira. Que te dê mais do que você deseja. Que te inspire a dar mais de si mesma, sem que você ao menos perceba.
Encontre quem não minta para você.  Que seja taciturno, mas que saiba se despir dos adornos convencionais quando forem só os dois.
Que seja o mais simples possível. Porque ser simples é andar descalço e não necessariamente de havaianas.
Então encontre alguém já feito,refeito ou ainda por fazer. Mas encontre quem te fará. 


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

17 -

Olha, é só para avisar que eu já vou embora. Mas eu deixo sua chave embaixo do tapete, para que alguém possa entrar em meu lugar.
Eu me desculpo por ir assim, dessa forma. Nós dois sabemos que a culpa foi mal atribuída até aqui. Não é só você, nem meu eu em você, nem nada mais de você. Mas sou eu, a menina que ainda não aprendeu a gostar fragmentando as coisas, que não consegue aceitar outros muros além do seu.
Somos todos tão egoístas, e eu não vou me dividir para trocar pedaços com você.
Eu não aprendi a ser só número até hoje, nem tempo verbal.
Não sou classe gramatical, também. Eu não ligo termos nem dou nome às coisas. Embora possa parecer que é só o que tenho feito.

E agora eu faço algo por mim. E é óbvio que todos os outros não fariam o mesmo. "Somos, agora, iguais a todos eles, então? "Somos iguais, somos nós dois?
Não me desculpe.  Agora eu já nem ouço. Me lembro de algumas palavras ofensivas, mesmo tendo jogado todas elas para fora do meu quadro. Eu não minto. Não sou assim. Não concordo. Não é justo, sincero. Não é bonito.

Me lembro quando ele me falou sobre o tempo dizer algo e já faz mais de quatro anos. E quando eu fui até lá, as mãos trêmulas feito as pernas, só para dizer coisas bonitas... Ele não ouviu, porque estava dormindo.
Por isso é melhor eu esquecer as flores.
Eu deixo tua chave. Palavra.

Já deve saber para onde estou indo. Mas não importa. Não te fará falta. Não te fará nada.
A princípio, achei que me puxaria com força e me pediria para ficar mais, respirar mais perto de você e compartilharmos nossas presenças.
Por que me seguraria, se é tudo exagero meu? É tudo desnecessário. Isso não importa.

Se foram aqueles dias na calçada e a minha falta de coragem, ou se foi aquele céu bonito que perdemos por ignorância, eu não sei. Mas eu teria me arriscado ainda mais caso você se lembrasse. Se ao menos uma vez você pudesse não esquecer!
Mas indiferença pode dar em vários tipos de solo.
Não é só. Isso não é tudo. Isso é tudo que falta. Mas vamos esquecer. Você está quase lá, uma hora eu chego também.
Porque você vai me deixar ir, que eu sei.
E não tem essa de coisa incompleta não, meu bem. É só que nós somos muito fracos para abandonar nossas histórias, por medo de que não venham outras tão boas quanto ou até melhores e perdemos coisas, pessoas, como se o mundo só soubesse tirar, arrancar, levar. Mas não. A gente ganha também. E aprende.

Não te escreverei mais cartas. Aquela foi a última e está embaixo do tapete com a chave.
Se não quiser ler, não precisa. É desnecessário também.

Hoje foi o nosso último debate sobre aquele assunto na escola.
Eu já estou certa de que não sou como você. Não sou somente química e biologia. E não! Não sou só matemática também!
Sou mais artes! Com cores, grafite, margem de 2 cm. Dibujos de Laurita.

Quando me perceber, se acaso o fizer um dia, leia a carta de novo. Olhe a foto. Pense em como fomos extravagantes. Em como eu fui intensa e você mesquinho.
Eu tenho um livro com a definição de todos eles, além da minha lista. Estava quase pronta para te mostrar, mas você já tinha escrito a sua. Pena não ter me escrito algo também. Pena não ter sido menino o suficiente.

Ser mulher, era o que aquela moça vivia dizendo, é deixar de desenhar corações na perna e em guardanapos? Escolher o que vai sentir, em níveis? É deixar os meses passarem como se duas mãos tão juntas não fossem nada além de mãos com dedos, unhas e pintas?
Ser sensata é não chorar quando o coração parece estar diminuindo dentro da gente? É não gritar no portão do amigo, de tanta saudade que às vezes dá?

 Pois eu sou uma menina. Desde os tempos da mesa de sinuca e o cabelo vermelho até o depois disso.
Sou menina com maria-chiquinha e vestido xadrez. Com cartas, doces e risadas estranhas.

Eu já tentei ser seca, lisa e reta.
Mas eu sou menina, tão tão tão menina que já estou indo embora.


domingo, 1 de janeiro de 2012

Também bate um coração.

E deixem que eu diga, caros senhores, porque tenho muito a dizer.
Pois tenho um coração que bate. E sangue nas veias.
Deixem-me falar,então.
Eu sinto tanto por não poder dizer de outra forma. Sinto ter esse jeito azedo de me mostrar. Essa voz meio áspera e essas mãos, ah essas mãos, que mal sabem tocar.
Eu sinto não poder dizer, mas eu sinto.Porque se dissesse não seria diferente.
O mundo acostuma fácil, eu também. Eu já desaprendi a ser do outro jeito por conta do fracasso que é quando tento ser diferente.
Eu também já acreditei muito nas pessoas. E já fui boba, meus senhores.
Eu já quis gostar e mostrar  a cara, livre de qualquer maquiagem. Já o fiz.
Mas a água que me jogaram era fria demais.
E então eu fiz de propósito. Deixei que me molhassem. Deixei a vida ser.
Porque a vida também é. E é cruamente.
Dancei aquela música de novo e senti o perfume novamente.
Tentei abraçar, mas com esses braços?
Tentei beijar, mas com essa boca?

E corri de novo.
Eu dei uma volta inteira e caí em cima de mim. Me vi obrigada a me aceitar, a me ouvir, me entender, me aconselhar.
E, por Deus, eu fiz.
Com a cara mais lavada do mundo, senhores, eu fiz.
Mostrei-me a tal ponto que quase voltei a acreditar em tudo de novo e admirar, boba, as cores do mundo.
Mentira! Eu ainda admiro. Mas calada, porque ainda dói.
Porque ainda estou machucada.
Ainda sinto tanto ou mais que antes, ainda tenho um coração e sangue nas veias.
Mas ainda não sei como fazer.
Não sei voltar atrás.
E não sei como não me arrepender de ter deixado que me magoassem tanto, senhores.



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A gente só queria um amor

Deus sabe que o que eu quis sempre foi amor.
Que só precisava de um hálito quente e braços macios. De colo e chocolate. E presença, daquelas que não deixam a desejar, completas.
Eu só queria era escrever coisas e enviar a alguém, mesmo que para morrer de arrependimento logo depois.
E me expor, até o último fio de cabelo, em nome dessa minha parte tão sensível que cisma em amar  com tanta urgência.
Ele sabe, sabe que eu sou bem mais que esses fios de cabelo amarelados e que não escolheria escrever se pudesse sentir diretamente. Mas não. Eu ainda não aprendi a sentir sem etapas, num gole só.
 Sempre soube disfarçar, que é para não machucar muito. Mas por trás desse meu silêncio há um canto desesperado, uma fraqueza que esse ar frio não deixa ninguém ouvir. Porque isso congela tudo, por fora e por dentro.
Mas tudo o que eu queria era mãos dadas. Alguém que soubesse ser. Que me fizesse gostar disso. Me deixasse bamba. Com flores em Agosto e sorrisos de presente. Além de um Setembro mais doce e aquela falta de ar. Sem vergonha nenhuma, mas com vontade. Com uma vontade imensa de beber, comer, pensar amor.  Sabendo que amor é amor e chega de conversa.
O que eu queria era um natal com muito vermelho e a esperança de uma coisa boa acontecer.
Tudo o que eu quis, Deus sabe, sempre foi amor.


sexta-feira, 14 de outubro de 2011






Hoje eu morri. Já é a segunda vez que isso me acontece na vida.
Cansei dessas mortes.
Muita violência. É dor, dor, dor demais.